Educação Financeira Crianças

Lições de valor

Lições de valor

Oferecer educação financeira aos filhos é mais do que ensiná-los a lidar com o dinheiro. É ajudá-los a ser adultos mais responsáveis, conscientes e capazes de realizar seus sonhos
Texto: Françoise Terzian // Fotos: Lucas Lima, Cristiano Tavares Mariz e Alexia Santi

 

Lições de valor
Clodoaldo com a família: educação financeira não só para os seus alunos, mas para os filhos também
Você pode achar ou não que dinheiro traz felicidade. Mas, por mais que seja desapegado das riquezas materiais, não pode negar: lidamos diariamente com notas, moedas e cartões. E dependemos desses recursos para sobreviver e realizar nossos projetos de vida. Sendo assim, fica fácil concluir: é impossível ser um bom pai ou mãe sem incluir na educação dos filhos uma boa dose de lições financeiras.
A primeira dúvida costuma ser: quando começar? “Por volta dos 3 anos, a criança percebe que é preciso dinheiro para comprar coisas”, diz Alexandre Damiani, diretor executivo do Instituto DSOP (Diagnosticar, Sonhar, Orçar, Poupar) de Educação Financeira. Desde então, alguns conceitos já podem ser treinados. E o melhor jeito de ensinar é sempre pelo exemplo. “De nada adianta falar que é preciso economizar e sair gastando no shopping ou então pedir um monte de comida no restaurante e deixar de lado”, avisa a jornalista Patricia Broggi, autora do livro Falando de Grana. “São sinais contrários que só irão confundir a cabeça da criança”, completa.
Quando os pequenos têm necessidade de fazer seus primeiros gastos, como o lanche na escola, os especialistas sugerem que seja instituída a mesada, ou semanada. “É importante ter um dia fixo para pagá-la. Assim, a criança pode planejar, poupar, fazer escolhas”, diz Patricia. Nem sempre essas opções serão as mais corretas, mas isso também faz parte do aprendizado. Os pais devem mostrar que, se gastar tudo de uma vez, não sobrará nada até o próximo recebimento. Com o tempo, a prática pode resultar não só em aprendizado para os filhos, como em economia para a família. “Antes de instituir a mesada, eu gastava cerca de 350 reais por mês com minha filha”, conta Alexandre Damiani. “Hoje, eu dou 250, e é suficiente, pois, como o dinheiro é dela, ela valoriza mais. Chega até a levar marmita na escola para poupar”, conta.
Ensinar a juntar recursos para realizar sonhos é uma das lições mais importantes. “Devemos nos reunir com as crianças e traçar projetos de curto (até 12 meses), médio (até 10 anos) e longo prazo (acima de 10 anos). E mostrar que é preciso poupar para cumpri-los”, afirma Alexandre. Para isso, o cofrinho é um ótimo instrumento. “Ele ajuda a mostrar que a criança pode ter aquilo que quer, mas nem sempre no momento em que deseja”, explica o educador Reinaldo Domingos, também do Instituto DSOP.
Num país como o nosso, em que mais de 63% das famílias estão endividadas (segundo dados de julho deste ano, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), ensinar os filhos a lidar com o dinheiro é mais do que colaborar para seu futuro individual: é ajudar a construir uma nação mais consciente. Confira a seguir histórias de famílias que já entenderam a importância dessas lições.


O poder do cofrinho
Quando o paulistano Clodoaldo José da Silva, hoje com 40 anos, sofreu um acidente jogando bola, em 2009, e rompeu o tendão de aquiles, sua vida inteira começou a se transformar. Funcionário da área de manutenção de uma fabricante de impressoras e pai de três filhos, ele se viu impedido de trabalhar por 10 meses. A família passou a ser sustentada com a indenização do INSS e a renda da esposa, Josélia, dona  de uma pequena papelaria.
Com o orçamento apertado, Clodoaldo decidiu fazer um curso de educação financeira. Acabou mudando de profissão. Hoje é educador do Instituto DSOP (Diagnosticar, Sonhar, Orçar, Poupar) e repassa as lições que aprendeu não só a seus alunos, mas também a seus filhos: Eric, de 14 anos, Larissa, de 11, e Letícia, de 10. Os três são incentivados a poupar 50% da mesada para realizar sonhos a longo prazo. “É importante ajudar a estabelecer metas e as estratégias para chegar lá. Assim, mostramos à criança que, mesmo que demore, ela vai conseguir aquilo que deseja”, explica Clodoaldo.
A filha mais nova poupou durante um ano, com a ajuda  do cofrinho dado pelo pai, e juntou 80 reais em moedas para comprar uma coleção de livros da Barbie. Já Larissa, a mais velha, conseguiu economizar 130 reais no mesmo período, superando em muito sua meta inicial, que era de 50 reais. Comprou um tênis, um livro e ainda sobrou dinheiro para a lanchonete.

 

Faça você também O cofrinho é ótimo para ensinar seu filho a poupar e planejar. Ajude-o a estipular um prazo e uma meta a ser acumulada. E dê o exemplo: abra uma poupança e alimente-a com pequenos depósitos, para que ele possa usufruir quando for maior de idade.
No mercado e na Disney
Júlia, de 9 anos, e o irmão André, de 8, de Brasília, já realizaram duas vezes o sonho de muita criança: viajar para a Disney, nos Estados Unidos. Mas isso não significa que eles possam esbanjar. Muito pelo contrário. A mãe, a bancária Alessandra Simões, de 40 anos, usa essas ocasiões para desenvolver nos filhos a consciência financeira.
A segunda viagem, em janeiro deste ano, começou a ser planejada 10 meses antes. Nesse período, os dois economizaram a mesada. Nos aniversários, em vez de presentes, pediram dinheiro. Juntaram cerca de 600 dólares cada um. Chegando ao parque, as lições continuaram. Deslumbrada numa loja de bichinhos de pelúcia, Júlia queria levar quatro de uma vez. “Mostrei a ela que, se fizesse isso, ia ficar sem dinheiro. Ela entendeu e acabou comprando só um”, lembra Alessandra.
A mãe também aproveita as compras do dia a dia para ensinar a gastar com cautela: “No mercado, peço a ajuda deles para comparar preços e buscar as ofertas”, diz. Muitas vezes é preciso conter o impulso de agradar. Recentemente, o celular de Júlia desapareceu enquanto a menina participava de um acampamento. Mesmo sendo um item importante para entrar em contato com a filha, a mãe preferiu não presenteá-la com outro. Passou a responsabilidade à menina. Júlia aceitou numa boa: “Estou economizando minha mesada para comprar um novo”, conta.



Faça você também Não importa o tamanho do orçamento da família: limites são sempre fundamentais. Não tenha medo de dizer “Não temos condições de comprar”, “Não é seu aniversário”, “Não é porque seu colega tem que você também precisa”.

Sem desperdício
Heitor Akira mal sabia andar quando começou a ouvir falar de educação financeira. Quando seu irmão mais velho, Thiago Eiji, completou 3 anos, os pais – a administradora Regina Torihara, de 35 anos, e o engenheiro André Fernandes, de 39, de São Paulo – decidiram que era hora de começar a falar sobre isso, de forma leve e divertida. Compraram livros como O Pé de Meia Mágico (de Álvaro Modernell, editora Mais Ativos) e passaram a ler aos filhos. “Eles foram conquistados pelas ilustrações e acabaram absorvendo, aos poucos, os conceitos”, conta Regina.
Mas as lições não são só teóricas. Na prática, os irmãos aprendem a nunca desperdiçar. Parte das roupas de Thiago, que hoje tem 6 anos, são peças que não servem mais no primo mais velho. Heitor, de 5 anos, por sua vez, herda as roupas do primogênito. “Ele não reclama. Na verdade, até gosta”, conta a mãe. Quando as roupas ficam pequenas até para o caçula, são doadas a instituições de caridade. O mesmo acontece com os brinquedos.
Um dos grandes desafios do casal é ensinar aos pequenos que não podemos comprar por impulso. Nesse sentido, um dos costumes do casal é reservar os presentes grandes para datas especiais, como Natal e aniversário. “As crianças têm sempre ao alcance muitas opções para o consumo desenfreado. Precisamos mostrar a elas o valor do dinheiro”, pontua a mãe.



Faça você também Estimule seus filhos a doar aquilo de que não precisam mais. É, ao mesmo tempo, uma lição de solidariedade e de desapego material. Procure o Exército da Salvação (www.exercitodoacoes.org.br), que está presente em várias cidades do país.

Comece por você
A importância da educação financeira ainda está sendo descoberta no Brasil. Provavelmente, você não ouviu falar sobre isso na escola, e  talvez não tenha recebido as devidas orientações dos seus pais. Se você acha que precisa primeiro estudar para então educar seus filhos, confira algumas dicas de instituições, sites e livros que podem lhe ajudar.
• Se você está endividado e precisa de auxílio para reorganizar as contas, procure o Procon ou o Tribunal de Justiça: em alguns estados, essas instituições oferecem orientação financeira para quem está no vermelho.
• No site www.tveducacaofinanceira.com.br você pode assistir, de graça, a vídeos que explicam desde a história do dinheiro até a melhor forma de aplicar na bolsa de valores, passando pela organização dos orçamentos. A iniciativa é uma parceira da TV Cultura e da Bovespa.
• Há vários livros sobre educação financeira. Procure em bibliotecas e livrarias. Confira uma seleção de títulos:
Investimentos: Como Administrar Melhor Seu Dinheiro, de Mauro Halfeld, editora Fundamento
Como Organizar Sua Vida Financeira, de Gustavo Cerbasi, editora Campus
Terapia Financeira, de Reinaldo Domingos, editora DSOP

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